Várias pessoas se perguntam: “o que são nativos digitais?”
A resposta é rápida: são crianças que já nasceram com acesso à tecnologia.
Pois é… Seu/sua filho(a), esse ser cheio de perguntas interessantes e respostas rápidas e que parece ter nascido em outro planeta é um nativo digital. Reconhece imediatamente as funções de um controle remoto, abre qualquer jogo e o usa com naturalidade, enfim, circula no ambiente digital sem temor e parece que nunca lerá um manual de instruções na vida.

E você, será que precisa de manual de instruções para lidar com essa nova infância digital?
Como em tudo na educação dos filhos, também não há livro pronto ou regras universais no convívio com o ambiente digital. Porém, podemos ter certeza de uma coisa: a não ser que você viva em um lugar isolado, sem acesso à tecnologia vai ser impossível evitar que seu filho participe desse mundo. E isso nem seria saudável.
“A internet é uma nova ferramenta cultural, ou, melhor ainda, um novo kit de ferramentas culturais”, escreveram os psicólogos norte-americanos Patricia Greenfield e Zheng Yan em um estudo sobre o uso da tecnologia entre crianças para a American Psychological Association. “É cultural porque é compartilhada; normas são desenvolvidas e transmitidas para novas gerações de usuários, que então criam novas normas. E é um kit de ferramentas porque tem infinitas aplicações.”

Por meio da internet, seu filho aprende, mantém suas amizades e, em resumo, conecta-se com o mundo. Mas seu uso sem controle pode levá-lo também a desligar-se do mundo real e a perder o interesse por outras atividades – isso sem falar da exposição a conteúdos que a criança ainda não tem maturidade para compreender.
Moderação, portanto, é a palavra de ordem nessa relação. Tempo passado online é tempo não passado gastando energia, tomando sol, relacionando-se com outras pessoas, falando, ouvindo, tateando, experimentando outras formas de se desenvolver. Os pais devem ser agentes e desempenhar o papel ativo nessa relação, ajudando a criança a encontrar o que há de melhor nos dois mundos, o digital e o “analógico”. Precisam ter paciência para configurar o acesso dos filhos aos dispositivos (computadores, tablets e celulares) para limitar esse mundo ao que é seguro e, também, evitar o uso excessivo.

A superexposição da criança a celulares, internet, tablets e televisão está relacionada na maioria das vezes ao déficit de atenção, atrasos cognitivos, dificuldades de aprendizagem, impulsividade e problemas em lidar com sentimentos como a raiva. Outros problemas comuns seriam a obesidade (porque a criança passa a fazer menos atividade física), privação de sono (quando as crianças usam as tecnologias dentro do quarto) e o risco de dependência por tecnologia.

Para isso, a primeira coisa que os pais devem fazer é se perguntar se eles mesmos não estão usando smartphones, tablets e computadores demais. Não adianta impor regras aos filhos e o seu exemplo não for pautado também nessas regras. Importante ressaltar que não é saudável estimular as crianças antes do tempo a manipularem esses equipamentos. O melhor é deixar que elas mesmas demonstrem esse interesse para só depois terem contato com os mesmos. Isso sempre sob orientação para aprender a usá-los de forma correta.

Com relação ao aprendizado na escola, este está sendo coletivo. Os alunos são nativos digitais que trazem muito conhecimento e mostram o que há de novo diariamente na rede. Porém, é importante que não se pode perder de vista o foco final, onde nem tudo que é interativo é educacional. Quem vai dar esse sentido é o educador, que estando preparado para fazer essa mediação, utiliza dos recursos da internet para incentivar seus alunos, mas mantém o seu papel de intermediador e formador de conhecimento, contribuindo para o processo de ensino-aprendizagem. À internet tem seu lado de contribuição positiva quando bem utilizada.

Podemos citar como bons exemplos os jogos e aplicativos nos quais as crianças podem criar ferramentas e regras, digitalizar desenhos feitos à mão, gravar áudios e vídeos, etc. Variar é muito importante. Porém, quando o aplicativo estimula um comportamento viciante, obrigando a criança a ficar cada vez mais horas apenas naquele jogo, é bom ter cuidado e ficar alerta.  

Jogos gratuitos, mas que exigem a compra de mil acessórios – e bombardeiam a tela a todo minuto com propagandas – também devem ser evitados. Vale mais a pena comprar alguns poucos e bons aplicativos do que encher as telas com jogos de zero valor educativo. Por isso, é fundamental nunca entregar para a criança a senha para baixar ou comprar jogos. Ela precisa saber desde cedo que a decisão do que ela consome online é do adulto, mesmo que todas as sugestões partam dela mesma, a partir de dicas de colegas ou pesquisas próprias.

Ultrapassar o limite entre diversão saudável e vício é mais fácil do que parece. Crianças que têm dores de cabeça pelo excesso de horas no mundo digital, que evitam socializar com outras ou que se mostram agressivas durante ou depois do uso precisam ser observadas.
Manter o diálogo e investir em atividades familiares é outra forma de ajudar os pequenos a não se tornarem dependentes da tecnologia. Hoje as crianças ficam muito tempo diante das telas, e deixam de se dedicar a atividades importantes como esportes, atividades culturais ou simplesmente uma conversa em família para dedicar horas assistindo à televisão ou jogando no computador.

Os pais precisam também sair da comodidade para tirar os filhos dessa situação e colocá-los mais em contato com o mundo real, com a natureza e com outras crianças reais. Propor um jogo de tabuleiro, levar para um passeio a pé, preparar um alimento junto com a criança são atividades que podem ser introduzidas aos poucos e ganharem mais tempo com o passar dos dias, ajudando a devolver a vida “analógica” para as crianças – e também para os adultos.

Existem vários programas e aplicativos que prometem mais segurança na rede, no computador ou em dispositivos móveis. Mas não se iluda: 100% de segurança ninguém garante. Ou seja, se tiverem interesse, elas podem driblar e buscar o que quiserem. Mas algumas medidas ajudam a preservar a criança:

  • Deixe o computador em ambiente visível e, de vez em quando, dê uma olhada no que a criança está fazendo. Mostre interesse por seus jogos e brincadeiras online, deixando claro que você sabe o que ela está fazendo.
  • Se a criança já usa celular, não permita que ela o leve para o quarto. É o mesmo princípio do computador e do tablet: deve ser usado apenas em ambiente visível.
  • Redes sociais de adultos (Facebook e Twitter) são para adultos. Se a criança insiste em ter conta porque todos os amigos jogam por lá, diga que isso não é certo e ponto. Há redes próprias para os pequenos.
  • Ensine a criança que só quem autoriza e compra jogos é você. Não dê a senha de compra para ela, que pode “acidentalmente” comprar alguns itens.
  • Ative configurações de privacidade e de conteúdo restrito. As crianças podem burlá-las eventualmente, mas, mesmo assim, são uma barreira a mais.
  • Em geral, os aparelhos que usam o sistema iOS são mais seguros que os da Android. Para ter um aplicativo na iOS, o desenvolvedor tem de obedecer a muitos critérios e isso afasta programas mal-intencionados.
  • Alguns aplicativos de segurança que podem ser instalados nos aparelhos restringem o acesso e ainda avisam o administrador (ou seja, os pais) quando alguém tenta acessar conteúdo bloqueado, para Android e iOS.
  • Apresente à criança o lado educativo e fabuloso da rede. Assista a vídeos curiosos com ela, visite sites com jogos interessantes e estimule sua criatividade. Ouça mais e estimule-a a dar sua opinião sobre o que vê.

Porém, o mais importante é manter diálogo com a criança, mostrando-se disposto a esclarecer dúvidas e explicar os motivos pelos quais é preciso usar com cautela as novas tecnologias.

Não há como evitar que os filhos cheguem onde querem no mundo digital. Você não tem controle, principalmente quando eles ficam mais velhos. Eles já nasceram com esse conhecimento disponível. Mas, como em tudo na paternidade, é importante criar os filhos para o mundo e temos de prepará-los para isso. Ou seja, manual de instruções até existe, mas ele é construído coletivamente, em família, dia a dia.

Texto adaptado pelo SOEP

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