Matemática é para qualquer um!

Matemática é muito difícil”. “Eu não consigo entender nada”. “Não adianta estudar porque eu não vou conseguir”. Você já deve ter ouvido alguma dessas frases. Elas são bastante comuns, principalmente quando se está falando sobre ciências exatas, tema considerado de extrema complexidade para muitos. Para se ter uma ideia, no Brasil, oito em cada dez alunos concluem o ensino fundamental sem adquirir os conhecimentos esperados na disciplina, segundo o exame Prova Brasil de 2017. Mas, você já parou para pensar que a dificuldade talvez esteja apenas no seu subconsciente?

Em entrevista recente a BBC, Jo Boaler, autora e pesquisadora do ensino da matemática pela Universidade de Stanford (EUA), diz na primeira vez em as pessoas enfrentam alguma dificuldade com a disciplina, passam a acreditar que não possuem um ‘cérebro matemático‘. A partir daí, a visão negativa começa a ganhar força.

Para Boaler, esse fato é agravado quando o formato de ensino cumpre apenas o papel de ser resolução de questões. Ou seja, o aluno que responder primeiro a questão é o mais inteligente. Com essa prática, os demais se tornam desvalorizados e, muitas vezes, oprimidos. Quando se adotam modelos de ensino mais lúdicos, práticos e didáticos, as resoluções se tornam mais eficientes.

Para testar o modelo, em 2017, Jo Boaler e sua equipe aplicaram essas estratégias de ensino em um grupo de 84 alunos de 11 a 13 anos na Califórnia, de séries equivalentes ao Ensino Fundamental 2 brasileiro. Os jovens participaram de 18 aulas no projeto Youcubed, aprendendo matemática de um modo mais colaborativo. O resultado, diz a Universidade Stanford, é que nesse período eles aumentaram seus conhecimentos matemáticos no equivalente a 2,4 anos de ensino escolar.

De acordo com o professor de matemática do GGE, Hugo Oliveira, a sala de aula está em constante transformação e na matemática não é diferente.

“O aluno precisa de um conteúdo multimídia, de exemplos aplicados em sua rotina, de problemas aplicados a sua realidade. O professor tem que ter a sensibilidade de buscar esses diferenciais. E, mais do que isso, é preciso entender o contexto social, cognitivo e psicológico da turma”, ressalta.

Segundo Hugo Oliveira, a falsa crença de que o aluno que aprende mais rápido é o que mais entende daquela área atrapalha e muito o desempenho escolar das turmas como um todo.

“A partir do momento que eu reforço essa crença, os demais vão se achar incapazes de serem bons na matéria quando, na verdade, só demoraram um pouco mais para chegar ao mesmo resultado. As pessoas têm potencial de aprender independente do tempo. Todos têm direito a duas, três ou mais chances e isso não as tornam ruins naquele assunto. O que importa é que elas aprendam”, enfatiza.

Para o professor Hugo Oliveira, essa preocupação deve acontecer inclusive em casa, quando os pais conduzem os ensinamentos.

“Os pais precisam evitar jargões e discursos pessimistas desestimulantes. A criança confia nos adultos e uma frase de desestímulo para ela pode significar que ela não é capaz. Por isso, é preciso sempre refletir como se pode estimular a criança. Quais as palavras de incentivo podem ser ditas para ajudar o bloqueio a ser superado”, orienta.

E, quando relacionado à matemática, o cuidado com as palavras ditas às alunas merece uma atenção ainda maior. As ciências exatas, por si só, já são consideradas de domínio masculino.

“Hoje, até mesmo em sala de aula, precisamos quebrar esse preconceito de gênero. Mulheres são, sim, boas em matemática. As dificuldades podem acontecer independentemente do gênero. Quanto mais adultos levarem os discursos corretos, mais discursos corretos teremos no futuro”, ressalta Hugo Oliveira.

Alguns estudos já comprovam estas teses. Em 2007, um levantamento feito nos EUA com 373 alunos de ambos os sexos e diversas etnias, que estavam cursando a 7ª série, apontou que os estudantes que acreditavam ter uma inteligência limitada, sem poder mudar nada a respeito disso, não se destacavam em matemática. Já os estudantes que entendiam que sua própria inteligência era maleável, conseguiam ter bons resultados.

Outro estudo, realizado em 2013 por três pesquisadores italianos, acompanharam 120 meninas de seis anos que cursavam a 1ª série. Eles perceberam que aquelas que acreditavam que a matemática não era para mulheres tinham desempenho pior na disciplina que os demais alunos.

O fato é que o cérebro está em constante construção. É preciso sempre alimentá-lo com informações, habilidades, conceitos, ideias e, acima de tudo, com muito esforço. Ter uma dificuldade em determinado assunto não significa necessariamente que o assunto é impossível de ser aprendido. As tentativas são apenas passos a serem seguidos para que o aprendizado seja real. O tempo de compreensão não torna o aluno mais ou menos inteligente. O que importa é aprender.

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