Distúrbios alimentares e como preveni-los

Vivemos em uma sociedade em que o apelo visual e a busca por estereótipos são muito fortes. As informações, imagens e referências do chamado corpo ideal estão em todos os lugares. Os padrões estéticos são o principal reflexo dessa exposição desenfreada. O desejo de ter o físico perfeito, exposto a todo instante na televisão, internet ou em qualquer um dos meios virtuais pode causar distorções em relação à própria imagem. E é justamente aí que podem surgir os transtornos alimentares.

Anorexia, bulimia, obesidade e transtornos obsessivos compulsivos são apenas alguns exemplos de problemas do tipo. Os sintomas podem aparecer em qualquer fase do desenvolvimento, mas é na adolescência onde estão os maiores riscos. As mudanças físicas dessa etapa facilitam as distorções de imagem corporal. Como o adolescente não se identifica com o seu novo corpo, pode facilmente ficar com uma percepção confusa sobre ele. A partir daí, surgem novos questionamentos, desilusões e descontentamentos com o corpo, que podem desencadear transtornos psicológicos.

Antes de tudo, é preciso ter em mente que a maneira como as pessoas se alimentam representa mais do que quantidade, porções, aspectos econômicos e demográficos. Não é apenas o que se come, mas como se come. É a forma como a criança e o adolescente lida com a alimentação que precisa ser acompanhada de perto antes que os transtornos alimentares causem danos irreversíveis a vida deles. Quer entender um pouco mais sobre o assunto? Preparamos esse artigo orientar toda a Família GGE. Boa Leitura!

O que são os transtornos alimentares?

A alimentação de todo indivíduo precisa ser balanceada, contribuir para o bom funcionamento do corpo e não ser limitada ou excessiva. A insatisfação com a aparência física pode justamente desencadear os transtornos alimentares: a pessoa se enxerga de forma distorcida, passa a não se aceitar e desconta essa culpa na comida. Os transtornos alimentares mais conhecidos são:

Desnutrição – É uma doença causada por uma dieta inapropriada para as necessidades físicas do indivíduo. Nela há a ausência da quantidade de calorias e de proteínas necessárias ao bom funcionamento do corpo.

Anorexia – A pessoa se enxerga sempre como se estivesse acima do peso, se tornando dependente de uma vida com privações, em busca de atingir o peso ideal. O doente é levado a parar de ingerir alimentos quase completamente. Em muitos casos, o corpo começa a rejeitar os alimentos e o vômito acontece de modo não intencional logo depois da alimentação.

Bulimia – Apresenta sintomas similares aos da anorexia. Alguns sintomas mais comuns: a pessoa se alimenta ingerindo uma quantidade exorbitante de comida e, após a ingestão, o propósito é livrar-se dos alimentos ingeridos. Sendo assim, muitos ingerem uma grande quantidade de laxantes, diuréticos ou remédios que induzam o vômito.

Obesidade – É caracterizado pelo excesso de peso no indivíduo. O sobrepeso desencadeia outros problemas de saúde como, por exemplo, altas taxas de colesterol e glicose no sangue, problemas de circulação, cardíacos e respiratórios, depressão, etc.

Compulsão alimentar – consumo de grandes quantidades de comida de uma vez, com frequência, de forma que o comportamento alimentar fique fora do controle.

Sinais de alerta

O psiquiatra da Unidade de Transtornos Mentais da Infância e Adolescência do Hospital da Luz, Carlos González Navajas, lista alguns sinais que servem de alerta aos pais:

  • Perda de peso inexplicável;
  • Ausência ou redução da menstruação nas adolescentes (por mais de três ciclos consecutivos);
  • Preocupação excessiva com a perda de peso por parte de pessoas que já são magras;
  • Maior sensação de frio em comparação com os colegas;
  • Mudança nos hábitos de vestimenta (roupa muito larga) e também de horários;
  • Alterações nos hábitos alimentares;
  • Distorção da imagem corporal (jovens que se veem gordos, mas não são);
  • Medo exagerado de engordar, reconhecido abertamente;
  • Interesse excessivo por sites de informação nutricional;
  • Adoção de dietas muito restritivas;
  • Evitar comer em público;
  • Consumo excessivo de água (para gerar a sensação de saciedade);
  • Recusa em manter um peso adequado;
  • Prática de esportes de forma compulsiva;
  • Personalidade muito perfeccionista;
  • Baixa autoestima
  • Tristeza por causa do sofrimento. Jovens antes felizes e integrados se tornam tristes e irascíveis;
  • Perda das amizades habituais;
  • Mentiras sobre os sintomas.

O papel da família

A família precisa ficar muito atenta à cobrança do “corpo perfeito”, de padrões de beleza que a sociedade impõe, conversando sempre com os filhos sobre a importância de uma alimentação adequada para a saúde e também para o bom desempenho acadêmico. Durante o desenvolvimento infantil, principalmente na entrada da adolescência, uma característica que se mostra muito importante é a aceitação por um grupo de amigos, a famosa “tribo”. Nesse momento, o adolescente não se aceita e quer parecer com esse grupo de referência, abrindo a porta para possíveis problemas de comportamento.

Considerando a realidade da adolescência, onde há muitas mudanças, conflitos e questionamentos, alguns transtornos alimentares muitas vezes se tornam mascarados. Questões como vergonha, medo e baixa autoestima acabam ganhando espaço na vida deste público. Vale ressaltar que, nesta etapa, os transtornos alimentares estão muito correlacionados à ansiedade. Por exemplo, muitas vezes, determinadas preocupações com o rendimento escolar, desembocam na ansiedade, que reflete no excesso ou inibição do apetite.

Em casa, os pais podem estimular os momentos de refeição em família, como forma de vivenciar e observar aspectos da rotina do adolescente, que caso esteja enfrentando alguma dificuldade alimentar, tais momentos são cruciais para fortalecer uma rede de apoio, bem como ofertar alimentos saudáveis. Além disso, a participação do adolescente no momento do preparo das refeições pode ser um elo de abertura para o diálogo de como ter uma forma de alimentação mais saudável.

Quanto mais os pais estimularem práticas de escolhas saudáveis, desde a introdução dos alimentos na alimentação da família, bem como o conhecimento acerca do preparo de alimentos para os filhos, pode servir de apoio inicial. A presença do diálogo com os filhos sobre os riscos que envolvem esses transtornos alimentares, apontando sempre para as maneiras saudáveis de emagrecer e propondo o acompanhamento profissional para cada caso, são alternativas bastante salutares.

Outro fator importante diz respeito ao vínculo afetivo desenvolvido em família, pois muitas vezes alguns problemas podem ser desencadeados pelo aspecto emocional, que pode se tornar um terreno fértil para desenvolver relações abusivas com a alimentação. É importante sempre ficar atento às mudanças de hábitos que os filhos apresentam e não confundir vaidade com um transtorno alimentar. O exemplo dos pais é de fundamental relevância para prevenção e isso inclui a necessidade de cuidado com o corpo e com a mente de forma equilibrada.

Caso o problema já esteja estabelecido e só posteriormente se perceba os seus traços, os pais devem conversar com os filhos para adverti-los sobre os riscos à saúde, sempre por meio de um diálogo aberto, respeitoso, com cumplicidade, mostrando apoio e não repreensão. Em seguida, devem procurar ajuda multidisciplinar para acompanhamento da saúde física e mental da criança ou jovem.

O papel da escola

A identificação de casos de transtornos alimentares pode acontecer dentro do ambiente escolar. A parceria entre escola e família é fundamental para a prevenção e o cuidado com a saúde física e psicológica dos alunos. Por isso, o olhar de toda a equipe é essencial, pois o contato direto com o aluno em sua rotina na escola, principalmente nas horas de sua alimentação, pode ajudar a identificar alguns sintomas frequentes, como dor de cabeça constante, cansaço, falta de socialização, ou tempo excessivo no banheiro. Quando há algum sinal de alerta, a família deve ser acionada de imediato.

O papel da escola também é o de promover o debate sobre esses temas em todos os segmentos de ensino. Na Educação Infantil do GGE, por exemplo, o trabalho começa com a apresentação das emoções primárias, contextualizando através do lúdico. Aprendendo desde cedo a lidar com frustrações como, por exemplo, receber um não de um amigo (e também saber dizer não), expressar sentimentos sem machucar, as crianças já ganham subsídios para crescer sabendo dizer o que estão sentindo e a melhor se preparar para o convívio social.

No Ensino Fundamental 1, as crianças começam a ser apresentadas à disciplina de alfabetização emocional, aprendendo como lidar com as ansiedades e frustrações das relações pessoais e acadêmicas. Mais na frente, já na adolescência, os trabalhos desenvolvidos em relação à ansiedade acabam contribuindo para pensar novos olhares de estilo de vida, considerando uma escolha saudável na alimentação. Além do mais, a alimentação consciente é um tema bastante importante, onde se faz referência à importância do momento das refeições, trabalhando os cinco sentidos como forma de observar a relação desenvolvida com a alimentação.

A partir do Ensino Fundamental 2, alguns temas, antes abordados de forma subjetiva, agora passam a fazer parte de uma abordagem direta em sala de aula. Entre esses temas está a autoimagem corporal, pois se trata de um período de diversas transformações que muitas vezes trazem muitas inquietações na vida de um adolescente. Sendo assim, dialogar sobre padrões de beleza, que começam a ganhar cena socialmente, é importante para que haja a construção de uma imagem que esteja de acordo com os valores pessoais dos alunos. Os jovens precisam entender as mudanças que acabam acontecendo neste ciclo de suas vidas, para que haja um resgate de sua identidade como fator de proteção.

Além disso, tendo sempre em mente que levar a informação é o melhor caminho, em todas as etapas do ciclo escolar são desenvolvidos projetos continuados onde a escola desempenha uma função importante na construção de ferramentas que ajudam a desmistificar conhecimentos equivocados sobre a alimentação e também trabalham com aspectos da ansiedade. As aulas de Educação Física são fortes aliados neste sentido. Dentro do conteúdo programático são incluídas informações sobre a conscientização e prevenção de algumas doenças. Em alguns casos, os alunos chegam, inclusive, a desenvolver projetos ou produtos, como jogos educativos, que tratem da temática.

No projeto “Medidinha Certa”, realizado nas aulas de Educação Física, os alunos do 9º ano do Ensino Fundamental 2 recebem orientações sobre os distúrbios alimentares, como anorexia nervosa, bulimia e vigorexia, esta última menos conhecida, mas também muito prejudicial à saúde. O intuito do projeto é aproximar os alunos da prática de exercícios dentro e fora do âmbito escolar, através da realização de uma avaliação física com base em testes metabólicos adequados e adaptados à faixa etária e gênero dos participantes, como aferição de pressão arterial, frequência cardíaca em repouso e de capacidade cardiorrespiratório. Outros fatores analisados são a força, resistência e flexibilidade como sendo os neuromotores; e os antropométricos, como peso, altura e circunferências corporais destacando cintura e quadril. Assim, cada aluno pode realizar e conhecer seu desempenho, classificando seus próprios resultados, facilitando, desta forma, o entendimento sobre o assunto e a consciência saudável de sua autoimagem.

A partir dessas dinâmicas, os estudantes têm conhecimento do seu estado físico e podem optar pelas atividades mais adequadas às suas características físicas. Aprendem também a controlar a intensidade do exercício por meio da frequência cardíaca, realizando desta forma uma atividade com mais segurança e conforto, bem como otimizando os resultados desejados.

A preocupação com o acompanhamento nutricional e alimentação saudável dos alunos também é realizada nas cantinas das unidades GGE, que são administradas pela rede Appetite Gourmet. Além de sempre oferecer alimentos saudáveis, o local dá opção aos pais de terem o controle do que as crianças podem ou não adquirir no local. Desta forma, o monitoramento e a certeza de que a dieta balanceada está sendo mantida é mais rigorosa.

Além disso, há um trabalho contínuo promovido pela escola para que os pais se preocupem com alimentação de seus filhos também no ambiente familiar. Para isso, o Colégio GGE desenvolveu materiais ricos, como o e-book que traz dicas de alimentação para cada fase do aluno, bem como o livro de receitas para lancheiras saudáveis, que inclui vídeos que ensinam o preparo dos lanches, mostrando que não é tão difícil montar diariamente uma lancheira que ofereça às crianças e jovens um bom e diferenciado cardápio.

A proposta da escola é sempre a de que haja um diálogo aberto com os pais e alunos sobre o tema, seja por meio de palestras, roda de conversa ou por meio de projetos que podem ser elaborados por profissionais da área de saúde que atuem na escola, como psicólogos, educadores físicos ou nutricionistas, considerando sempre a faixa etária do aluno.

Em todos os projetos, a proposta é massificar a real noção de que é preciso cuidar da nossa autoestima através de pontos como:

  • Ser mais construtivo e pensar positivo;

  • Valorizar a si mesmo;

  • Evitar fazer comparações;

  • Aprender a lidar com as frustrações da vida;

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  • Passar mais tempo com pessoas que você gosta;

  • Traçar objetivo;

  • Fazer terapia para uma melhor percepção de si mesmo.

Alimentação balanceada

Falar sobre distúrbios alimentares e não tratar de alimentação parece um pouco contraditório, não é?! O que acontece é que, como já tratamos acima, esses transtornos são psicológicos e precisam de um tratamento multidisciplinar. É claro que isso inclui uma alimentação balanceada, orientada e acompanhada por um nutricionista. Mas, os pais e alunos precisam sempre ter em mente que não existe um cardápio ideal aplicável a todos os indivíduos. Cada pessoa possui características fisiológicas específicas e, por isso, hoje se trabalha muito a individualidade bioquímica.

Por outro lado, alguns alimentos contribuem para o desenvolvimento de algumas habilidades. Por isso, precisamos pensar na nutrição como sendo fundamental para que o cérebro desenvolva todas as suas funções de forma plena. É por isso que o comportamento alimentar é um processo que precisa ser fortalecido.

A ausência de nutrientes interfere diretamente na concentração. O consumo dos grupos alimentares (carboidratos, proteínas e gorduras boas) é imprescindível para o desenvolvimento e qualidade de vida de todos, inclusive das crianças e adolescentes. Priorizar os alimentos que vêm da terra (frutas, verduras e hortaliças), além do consumo de oleaginosas, azeite, incluindo fontes de proteínas em quantidade suficiente (leguminosas – feijões, proteínas de origem animal – como a carne, frango, peixe, ovo e laticínios) também é vital para o consumo consciente.

Um exemplo de item cujo consumo precisa ser monitorado é a glicose. Nosso cérebro e nossos neurônios, por exemplo, utilizam a glicose como fonte primária de energia, sendo necessário o aporte de carboidratos provenientes dos alimentos em nossa alimentação e, por isso, não se estimula o uso de açúcar de mesa para consumo. Outro alimento importante é o ômega-3, um lipídio que é essencial para manter as membranas celulares, atividade cerebral, a transmissão de impulsos nervosos e o desenvolvimento normal dos tecidos do cérebro. O item pode ser encontrado em peixes, castanhas e linhaça, por exemplo. Tem também alguns alimentos utilizados para favorecer concentração, porém necessitam de prescrição para o uso, visto que crianças não devem consumir indiscriminadamente: chás (como o chá verde, branco e o de canela) e chocolate com teor mínimo de cacau a 70%.

Algumas dicas para ter uma alimentação equilibrada:

  1. Elimine as guloseimas;
  2. Evite substituir refeições. Manter a rotina é fundamental;
  3. Criar o hábito do café-da-manhã. É ele que vai dar o norte para que o corpo seja equilibrado ao longo do dia;
  4. Elimine a seletividade;
  5. Tolere um pouco a bagunça a mesa, mas não associe a alimentação a brincadeiras ou recompensas.

Conclusão

Quando falamos sobre transtornos alimentares estamos nos referindo a pessoas que tem um relacionamento abusivo com a alimentação e que utilizam a comida para expressar emoções que elas não sabem como sentir. Muitas vezes os comportamentos de recusa alimentar, ingestão exagerada de alimentos, ou até mesmo vômitos e diarreias, são silenciosos e é de extrema importância que a família esteja sempre atenta ao comportamento de crianças e adolescentes em momentos das refeições em família. O diagnóstico precoce e o encaminhamento para o tratamento adequado pode prevenir consequências futuras. Para isso, é importante acionar um grupo multidisciplinar de profissionais (psicólogos, psiquiatras e nutrólogos, por exemplo) para que o problema seja conduzido da melhor maneira possível.

O apoio familiar é a base para enfrentar o transtorno, assim como abertura para diálogo, de maneira que o jovem se sinta seguro para expressar as emoções, frustrações, conquistas e derrotas. O diálogo é sempre a via mais segura, pois através da troca de experiências com seus pais o filho se sentirá seguro emocionalmente para enfrentar todos os conflitos de sua vida.

Fontes:

  • Thaís Oliveira – Psicóloga do Ensino Médio da unidade GGE Boa Viagem
  • Renata Freire – professora de Educação Nutricional do GGE e consultora de qualidade da rede Appetite (cantina das unidades do Colégio GGE)
  • Tamara Morais – Psicóloga do Fundamental 2 e Ensino Médio da unidade GGE Caruaru
  • Emanuela Freire – Psicóloga do Ensino Médio da unidade GGE Paissandu
  • Liliane Nascimento – Psicóloga do Ensino Fundamental da unidade GGE Benfica
  • Tayguara Velozo – Gestor pedagógico do Fundamental 2 e Ensino Médio do Colégio GGE

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