Comportamento: Como funciona a cultura do cancelamento

Cultura do cancelamento. Você já deve ter ouvido falar nesse termo. Nos últimos dias, ele ganhou destaque novamente devido a polêmicas geradas no Big Brother Brasil (BBB), mas não é algo novo. Em 2019, a expressão foi eleita o termo do ano pelo Dicionário Macquarie, que todos os anos seleciona as palavras e expressões que mais caracterizam o comportamento de um ser humano. No mundo virtual, cancelar significa excluir o outro da lista de consideração. E, para ser aceito novamente, o cancelado precisa mostrar que mudou ou que entendeu onde errou.

“O formato da cultura do cancelamento se potencializa no meio digital porque é próprio desse ambiente e do anonimato que as redes sociais conseguem permitir. Isso empodera muita gente no virtual de uma maneira que, certamente, no presencial não faria. O anonimato dá coragem para pessoas agirem como quiserem”, opina a professora de português e mestranda em Inovação em Educação pela Universidade de Lisboa, Emily Sousa.

Na vida off-line, a prática também repercute. Cancelamentos que ocorrem nas redes reacendem debates sobre os mais diversos temas, contribuindo para aquecer discussões e a possibilidade de expor diversos pontos de vista também presencialmente. E, diante desses posicionamentos, entender o diferente é o desafio e aprendizado. “No mundo off-line a gente tende a viver em bolhas, apenas com nossos pares e com aqueles que estão próximos da gente. Não conseguimos dialogar com o outro lado. É neste contexto que entra o cancelamento. Não conseguimos compreender que o outro pode errar”, afirma a jornalista e especialista em Direitos Humanos, Neide Andrade.

Segundo Neide, uma coisa importante para se falar sobre cultura de cancelamento é de que apenas o direito à liberdade de expressão, positivado em lei, não é suficiente para que seja efetivo. “Existe um emaranhado de relações sociais que precisa ser estudado e ressignificado para que todo mundo de fato expresse seus pensamentos. Muitas vezes o próprio medo de ser cancelado faz com que as pessoas não falem algo”, diz.

O recente caso ocorrido no BBB pode nos mostrar o impacto do cancelamento no mundo on e off-line (ou na vida real e virtual). No reality show, um grupo de participantes decidiu “cancelar” ou “isolar” um colega (Lucas Penteado) justificando que ele tinha errado em algumas atitudes. Os julgamentos foram tantos que ele pediu para sair do jogo. Do lado de fora da casa, o caso teve outra repercussão. Os telespectadores identificaram as atitudes contra Lucas Penteado (foto) como racismo e também avaliaram o peso das acusações no emocional dele.

Outro caso aconteceu no ano passado com a influenciadora digital Gabriela Pugliesi, que deu uma festa para convidados durante o período de quarentena mais rígido, devido ao aumento de casos de Covid-19. Diante da repercussão negativa, a influencer perdeu contratos publicitários e excluiu sua conta nas redes sociais.

Lucas Penteado. Crédito: TV Globo/Reprodução

São apenas exemplos recentes, mas os cancelamentos acontecem sobre diversos temas e levantam discussões sobre assuntos recorrentes e necessários, como: racismo, machismo, homofobia, entre outras formas de intolerância. A questão é como as atitudes repercutem. “Tem que avaliar até que ponto estamos ensinando, quando se destila o ódio. Porque na verdade não abre diálogo, só está excluindo. Não adianta apenas excluir sem esclarecer. O que tem sido feito no cancelamento é apenas tirar de cena. É um linchamento. Se perde a oportunidade de refletir. Isso que precisa ser melhorado”, ressalta Emily Sousa.

Esse modelo de argumentação, com estímulo ao debate e à construção de opiniões, é o que pode ser trabalhado nas escolas como forma de ampliar a discussão do tema assim como de outros assuntos. “Se o objetivo é transformação tem é que pegar as pessoas equivocadas e fazer com que elas compreendam e se tornem propagadoras da mensagem de empatia e não simplesmente tirar do foco. Se o objetivo é crescer e construir junto, tem que ampliar o debate. Pessoas que se incluem nas causas das minorias querem ter causas ouvidas e direitos adquiridos. Para isso, tem que transformar a sociedade e não tirar de cena”, enfatiza Emily.

Conforme o criador de conteúdo digital, Artur Miranda, tem se falado muito em saúde mental e bem-estar, que foi inclusive o tema da redação do Enem, e se esquece de trabalhar o pensamento crítico.

“As coisas na internet são muito imediatistas e as pessoas escolhem sempre um lado como sendo o mais massacrado. É preciso trabalhar o posicionamento e a argumentação”, sugere.

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